O Sol já nasceu a algumas horas e ainda
permaneço deitada, envolvida em lençóis e mais frases escritas que ontem. O
trabalho está adiantado e já tenho em mente o final da história.
Entre o balançar das cortinas consigo vê-la. Sempre em movimento, cheia de luz, de ânimo e objetivos. – A vida.
Pergunto-me quem terá atribuído estes nomes a esta palavra tão pequena, tão frágil, tão duvidosa.
Viver será mais importante do que aquilo que tenho entre mãos?
Há quem diga que sim.
E viver não será também aquilo que faço?
Os meus textos têm movimento, ânimo, objetivos e todo o tempo que passo à sua volta parece tempo perdido para quem me observa. Todavia são o que mais me mantém viva.
O silêncio é quebrado pelo bater da porta. É Alice com o almoço, e mais uma vez constata o meu estado, sentada, a fazer aquilo que sei fazer.
Peço-lhe que coloque no local do costume, junto à cómoda. Já é velha, de madeira antiga, está na minha família há uns anos e a última gaveta faz sempre barulho ao abrir. Por isso limito-me a usá-la apenas para guardar objetos pessoais que já não utilizo com regularidade.
Alice sai em sem comentar o estado do tempo, ou os dias que já passaram, ou como péssimo está o meu cabelo.
Instantes depois volto a colocar os olhos entre linhas, e assim passam-se mais duas horas até que a minha caneta, subitamente, para de escrever. Estava a meio de uma descrição do jardim da casa do Sr. Almeida, recentemente viúvo e com uma neta para educar, quando acabou a tinta. É a terceira este mês.
Grito por Alice, mas não obtenho resposta.
Decido levantar-me e dirijo-me à secretária junto à janela. Abro a primeira gaveta, a segunda, vasculho entre os papéis soltos, empilhados sob cadernos gastos, e não encontro uma única caneta. Tem que ser uma caneta preta.
Visto umas calças brancas e uma blusa fina que agora está uns números a cima, mas não me importo.
Há uma luz que me encandeia os olhos, ao abrir a porta principal, aquela que também aparece nos meus livros. Ouço risos de crianças que brincam no fundo da rua e carros que se desviam de bolas que por vezes aparecem à frente das suas rodas.
O quiosque mais próximo fica a trezentos metros de minha casa e durante não consigo tirar do meu pensamento a frase que ficou a meio. Não me posso distrair. Nem há distração possível, pois tudo o que vejo, ouço e cheiro não alcança aquilo que vivo. A minha realidade.
Mónica Sousa
Entre o balançar das cortinas consigo vê-la. Sempre em movimento, cheia de luz, de ânimo e objetivos. – A vida.
Pergunto-me quem terá atribuído estes nomes a esta palavra tão pequena, tão frágil, tão duvidosa.
Viver será mais importante do que aquilo que tenho entre mãos?
Há quem diga que sim.
E viver não será também aquilo que faço?
Os meus textos têm movimento, ânimo, objetivos e todo o tempo que passo à sua volta parece tempo perdido para quem me observa. Todavia são o que mais me mantém viva.
O silêncio é quebrado pelo bater da porta. É Alice com o almoço, e mais uma vez constata o meu estado, sentada, a fazer aquilo que sei fazer.
Peço-lhe que coloque no local do costume, junto à cómoda. Já é velha, de madeira antiga, está na minha família há uns anos e a última gaveta faz sempre barulho ao abrir. Por isso limito-me a usá-la apenas para guardar objetos pessoais que já não utilizo com regularidade.
Alice sai em sem comentar o estado do tempo, ou os dias que já passaram, ou como péssimo está o meu cabelo.
Instantes depois volto a colocar os olhos entre linhas, e assim passam-se mais duas horas até que a minha caneta, subitamente, para de escrever. Estava a meio de uma descrição do jardim da casa do Sr. Almeida, recentemente viúvo e com uma neta para educar, quando acabou a tinta. É a terceira este mês.
Grito por Alice, mas não obtenho resposta.
Decido levantar-me e dirijo-me à secretária junto à janela. Abro a primeira gaveta, a segunda, vasculho entre os papéis soltos, empilhados sob cadernos gastos, e não encontro uma única caneta. Tem que ser uma caneta preta.
Visto umas calças brancas e uma blusa fina que agora está uns números a cima, mas não me importo.
Há uma luz que me encandeia os olhos, ao abrir a porta principal, aquela que também aparece nos meus livros. Ouço risos de crianças que brincam no fundo da rua e carros que se desviam de bolas que por vezes aparecem à frente das suas rodas.
O quiosque mais próximo fica a trezentos metros de minha casa e durante não consigo tirar do meu pensamento a frase que ficou a meio. Não me posso distrair. Nem há distração possível, pois tudo o que vejo, ouço e cheiro não alcança aquilo que vivo. A minha realidade.
Mónica Sousa
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